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27 de novembro de 2016 - 23h56

Alto custo de equoterapia dificulta acesso ao tratamento

Tratamento exige equipe multidisciplinar e estrutura para os animais

JÚLIA BEATRIZ, LUANA MOURA E MICHAEL FRANCO
Mariana da Silva necessitou do tratamento após sofrer convulsãoMariana da Silva necessitou do tratamento após sofrer convulsão  (Foto: Júlia Beatriz)

O alto custo com equipe e estrutura em centros de equoterapia é o principal impedimento para a garantir o acesso ao tratamento com equoterapia para pacientes de Mato Grosso do Sul. A regulamentação da terapia prevê equipe multidisciplinar de três profissionais em cada sessão individual e instalações adequadas para os cavalos. O Sistema Único de Saúde (SUS) não oferece o tratamento e os centros do Estado dependem de convênios e parcerias com planos de saúde e órgãos públicos para a manutenção dos locais.

O governador Reinaldo Azambuja sancionou, no dia 11 deste mês, a lei que institui o Dia Estadual da Equoterapia para incentivar o uso do tratamento e para homenagear os projetos realizados nesta área. A lei, publicada no Diário Oficial, é de autoria do deputado estadual Márcio Fernandes, do Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB). 

Em Mato Grosso do Sul, existem três centros de equoterapia regularizados. Para regularizar um centro, é necessária a filiação à Associação Nacional de Equoterapia (Ande), entidade detentora dos direitos sobre o método e uso do tratamento no Brasil. Todas as instalações do centro devem estar de acordo com as normas de Acessibilidade de Execução dos Métodos.  No estado, os centros filiados são o da Polícia Militar e o da Universidade Católica Dom Bosco (UCDB). O Centro de Equoterapia do Sindicato Rural de Jardim Passo a Passo, fundado neste ano, está em processo de filiação. 

O maior centro do Estado, o Centro de Equoterapia da Polícia Militar de Mato Grosso do Sul (PM/MS), fundado em setembro de 2002, é mantido por convênios e parcerias com órgãos estaduais e planos de saúde. O local atende 132 pacientes e 29 pessoas aguardam por uma vaga na fila de espera. O centro tem filiais nas cidades de Nova Andradina, Aquidauana, Corumbá e Dourados.

O coordenador e sócio-fundador da entidade, o tenente Vanderlei Roberto Lorensetti, explica que a equoterapia exige um número grande de profissionais, além da estrutura para manter os animais, que envolve altos custos. Para a maioria dos pacientes, é necessária uma equipe de três profissionais durante a sessão. "Um vai puxar o cavalo, é o guia. Um vai ser o lateral, que vai servir de segurança para qualquer situação que ocorra e o mediador, que vai guiar os exercícios do paciente". O mediador é decidido pela equipe de terapeutas do centro após uma avaliação médica obrigatória do paciente, antes do início do tratamento.

No local, trabalham 18 profissionais, entre terapeutas ocupacionais, psicólogos, fisioterapeutas e equitadores. O militar afirma que muitos destes projetos particulares de equoterapia não obtêm êxito devido aos custos. "Só a ração do cavalo já é muito cara. Aqui embaixo temos o veterinário da Polícia Militar, que não precisamos pagar e se precisássemos, seria uma fortuna só uma consulta".  O centro tem convênio com a Polícia Militar (PM), que sustenta o local. Além da manutenção dos animais, realizada pela PM, contas de água, energia e telefone, por exemplo, são pagas pela Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp). A Secretaria de Educação do Estado (Sed) também oferece suporte profissional para o centro.

Lorensetti explica que o centro não possui vínculo com a Prefeitura de Campo Grande. "Teve um período turbulento no município e ainda não conseguimos firmar parceria nesse sentido". militar afirma o órgão tem convênio com os planos de saúde particulares como Cassems e Unimed e o acordo não prevê a preferência de atendimento para os pacientes que têm plano. "O estatuto não permite que haja qualquer tipo de preferência, é um centro livre". 

O centro da Polícia Militar é o único que oferece o tratamento de forma regularizada em Campo Grande. O Centro de Equoterapia da Universidade Dom Bosco (UCDB) passa por reformas e não está em funcionamento.

O instrutor de auto-escola, Valdemir da Silva afirma que estava disposto a pagar 300 reais mensais para a filha, Mariana da Silva, de 22 anos, portadora da paralisia cerebral, realizar o tratamento de equoterapia em uma hípica não regulamentada."Ela tem paralisia cerebral mas nunca havia comprometido nada dela. Ela fazia o 4º semestre de Ciências Contábeis, aí ela cismou de trabalhar em 2014 e após um mês, ela teve a primeira convulsão". Após a quarta convulsão, a jovem entrou em coma e ficou com sequelas. Silva diz que houve resultados positivos depois de dois meses de terapia da filha. "Muita diferença já no equilíbrio dela. Ela já melhorou quase 80%. Agora ela já ta dando os primeiros passos no andador".

De acordo com a Ande, as indicações para o tratamento com a equoterapia são variadas, como lesões motoras e distúrbios de aprendizagem e linguagem.

Acesso pelo Sus

O Sistema Único de Saúde (SUS) não oferece o tratamento de equoterapia. De acordo com o psicólogo Wagner Massaranduba, caso o médico da rede pública de saúde considere o tratamento propício, o profissional prescreve a indicação e o paciente e sua família devem procurar por centros que oferecem a terapia. 

Para Massaranduba, o tratamento pelo SUS pode aumentar o progresso dos pacientes com deficiência e que estão em processo de recuperação. “A equoterapia oferecida através do SUS ia ajudar em inúmeras questões, se o SUS tivesse esse olhar pra equoterapia como um método tão completo seria de muita utilidade na rede publica. Seria um grande sucesso".


O psicólogo afirma que uma das causas do SUS não oferecer o serviço seria o custo elevado do tratamento e ressalta que é necessário ter uma equipe com muitos funcionários para que a equoterapia seja realizada de forma correta. "Para [equoterapia] ser feita de verdade você tem que ter uma equipe multidisciplinar. Você precisa de uma pessoa responsável pelo trato dos animais, pra ver se ele tá saudável e tá bem. Você vai ter um custo com médico veterinário também, pra esse animal estar bem para o atendimento. Tem custo de instalação, manutenção desse local, alimentação desse animal, com certeza não é algo barato. E isso pensando que você vai ter doação de animais, porque dependendo da raça do cavalo é muito caro. No atendimento da equoterapia você não pode ter só um animal, você tem que ter pelo menos 3, com peso e altura diferentes, isso faz diferença no atendimento".

Resultados

O terapeuta explica que a equoterapia é importante porque é um dos únicos tratamentos em que os estímulos recebidos na medula com o passo do cavalo, vão diretamente ao cérebro. “Quando uma pessoa sofre um acidente vascular cerebral, por exemplo, uma parte do seu cérebro perde a função através na inatividade dos neurônios afetados. Quando você é atendido através da Equoterapia, os estímulos recebidos na medula vão diretamente ao tronco cerebral e distribuída ao cérebro, onde novos neurônios através de sinapses passam a codificar esse estímulo recuperando a plasticidade cerebral, fazendo com que a pessoa recupere todo ou parte dos movimentos”. 

Informações cedidas pela fisioterapeuta Letícia Junqueira e pela psicopedagoga Luana Santos

A fisioterapeuta Patrícia Melo afirma que os resultados obtidos em decorrência da equoterapia ultrapassam as expectativas que a equipe médica tem em relação a recuperação do paciente. “A equoterapia tem um valor de recuperação altíssimo. Ela não substitui a fisio ou a psicologia, ela aumenta nossas mãos para podermos trabalhar com mais recursos no [paciente] tratado". 

O lutador campo-grandense de jiu-jitsu, Diego de Souza, de 27 anos, sofreu um acidente de trânsito há cinco anos e perdeu o movimento da perna esquerda. Segundo ele, o médico indicou que além da fisioterapia, era necessário o tratamento com cavalos. Souza afirma que a equoterapia acelerou o processo de recuperação. "Os médicos falaram que eu ia ficar um ano sem lutar. Aí fiz a o tratamento com os cavalos depois de quatro meses já estava bom e comecei a treinar de novo".

Souza ressalta a necessidade de haver mais centros disponíveis para a população ter acesso ao tratamento."Eu não tinha carro, minha perna quase não mexia. Eu moro aqui no Taveirópolis e tinha que ir no centro de equoterapia do outro lado da cidade. Pegava dois ônibus. Isso tinha que ser mais acessível, ter em várias partes da cidade".

Lins é bicampeão paralímpico (Foto: Arquivo Pessoal)

O paratleta paraense, Bruno Lins, de 32 anos, é representante do Brasil no atletismo nas Paralimpíadas do Rio de Janeiro em 2016 e apresentou um quadro grave de insuficiência respiratória icterícia, doença que implica em falta de oxigenação no cérebro, ao nascer. “Minha mãe conta que a médica chegou a informar que ia deixar o meu atestado de óbito pronto, pois, disse que eu só ia resistir por mais algumas horas".  

Lins teve paralisia cerebral e ficou sem andar por 10 anos. O atleta deu seus primeiros passos após tratamento feito na Equoterapia da Polícia Militar do Pará. “Digo para todos que comecei a andar pelas patas de um cavalo".

Depois do tratamento que fez durante 15 anos, Lins se tornou um velocista. Ele disputa em todo o país e no exterior provas de atletismo de 100, 200 e 400 metros. “Só tenho a agradecer a todos os profissionais que estiveram do meu lado e foram fundamentais para a minha superação. Espero que assim como eu, muitas outras pessoas tenham a oportunidade de ter esse privilégio e possam vencer na vida".

Lins afirma que além da evolução física proporcionada pela equoterapia, melhorou também sua autoestima. “Eu me sentia excluído por não poder andar igual os outros guris, mas no primeiro dia que montei no cavalo me senti igual a todos pela primeira vez na vida. Vi o mundo do alto e percebi que podia ser alguém".

Serviço

O Centro de Equoterapia da Polícia Militar de Mato Grosso do Sul (PM/MS) está localizado na Avenida Lima Félix, 174, no Parque dos Poderes. O telefone para contato é (67) 33260253.

 

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